Sonhos em crise não são sonhos desfeitos.


          Havia dias e dias, em que eu vivia como alguém normal. Vocês sabem, acordava por volta das sete da matina, tomava um banhinho seguido do pequeno almoço e, sem mais demoras mas quase sempre atrasado, lá ia eu para a escola às 08:30 para cumprir o meu dever de estudante. Podia não ter um trabalho onde ganhasse dinheiro mas tinha um trabalho que, para além de me ocupar o tempo, me dava a chance de me formar, de “poder ser alguém”. Foram 12/13 anos praticamente levados em vão, sempre a pensar que a vida estudantil não me daria sucesso ou descanso, mas agora arrependo-me e muito.

          Eu posso ter um talento, que é escrever, mas também sei que ninguém me levará a sério se eu não tiver um diploma a dizer que me licenciei. E isto, leva-me a acreditar que o Mundo não é assim tão leal quanto eu pensava. Já pensei centenas de vezes se há algum tipo de obrigação subjacente à vida de qualquer pessoa em obter um curso superior só porque toda a gente tem, e ainda não consegui pensar nada em concreto, apenas que, sem ter uma profissão “digna” ninguém me olhará com respeito. Mas isto leva-me a mais questões. Uma delas é: será que uma pessoa de “respeito” será melhor do que aquela que não merece “respeito”? Para mim, a resposta é óbvia: Não! Qualquer pessoa que fundamente a vida e os seus dias com acções que possam ser valorizadas, trabalho, força de vontade e coragem merece ser respeitada. Mas eu já só vejo revoluções, roubos, abusos, mortes, crianças sem uma refeição decente para se alimentarem, famílias desalojadas… e a razão disto é? A crise?? Acham?? Eu digo-vos que não é só a crise, então.. O problema está nas pessoas. A maioria delas já se habituo a viver com muito, a maioria dessas pessoas pensavam que tinha de viver com tudo e acabaram por ficar sem nada… a maioria das pessoas pensou que era no “gastar” que estava a solução, e enganaram-se, redondamente.

          Falo-vos da minha família, onde um pai sempre me disse que bem chegando aos 18 eu teria de arranjar um trabalho, e eu fiz isso. Mas infelizmente, como nos tempos que correm fecham milhares de postos de trabalho, a minha sentença durou apenas um mês atrás de um balcão. Lá fui guardando o dinheiro que recebera, para ir gastando em coisas mais importantes que fossem surgindo. Mas fui burro. Quando era criança, recebia uma boa quantia pelos anos ou outra festa qualquer e ia logo a correr gastá-lo… se fosse hoje já não seria assim… hoje gostava de ter esse dinheiro para tirar a minha licença de condução, ou para uma viagem, ou para cumprir outros tantos sonhos que um jovem tem.. Sinto-me infeliz por precisar do dinheiro para ser feliz… Sinto-me infeliz por precisar de reconhecimento para ser feliz… Sinto-me infeliz por dar voltas a mais para ser feliz… Eu sinto-me infeliz…

          Tenho de me habituar a pensar que, numa vida, existem coisas que acontecem por acontecer e que nunca mais voltam ou que simplesmente somos obrigados a desfazer-mo-nos de coisas do passado. Umas vezes isso acontece sem nos darmos conta, sem termos tempo de voltar atrás e corrigir ou remodelar seja lá o que for. Também já aprendi que a cabeça não precisa de guardar momentos felizes, até porque nessas alturas, pintam-se imagens em máquinas modernas para darem luz, um dia mais tarde, a molduras. É pena é que sejam imagens paradas no tempo. Eu lembro-me de tudo mesmo assim. Seja apenas de um jantar, em que todos bebiam e riam e conversavam ou discutiam dos mais diversos assuntos da actualidade, enquanto a dona da casa fazia de tudo para receber bem os convidados… ou seja de uma caminho, percorrido em direcção à costa algarvia, e no sono que se aproveitava para repor naquelas 3 ou 4 horas de viagem… Enfim, tudo mudou e sei que, no que toca a estas sensações, nunca haverá “cromos” repetidos.

          E aqui, encontro o medo. O medo de ter medo, o medo de não conseguir arriscar, o medo de não saber o que está certo. Eu sei que preciso de procurar as minhas histórias, tentar ser livre pelo menos. Também sei que, não é num livro que eu encontrarei a caricatura da minha história ou do meu futuro. Eu sinto-me parado e não é apenas por sentir, é porque estou mesmo parado de todo. Se antes era o tempo que me acompanhava, hoje sou eu que acompanho o tempo. Consigo ser mais lento que tudo o resto, sendo eu o próprio resto, o que é mau. Deito-me, mal me levanto, se me levanto pouco faço, não como a horas certas, não sei o que é estar em família, não me apetece fazer completamente nada. Isto é um vazio eu sei, mas parece que ando a desistir de tudo. Preguei-me à saudade, à angústia de não ser quem eu realmente queria, ao azar que tive… mas devia ligar mais à sorte e chamar essa tal de fé. É que só se eu não quiser é que não terei o respeito que me é devido, e nem é só isso, preciso também de me sentir confortável e realizado.

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por Paulo Alexandre Henriques

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~ por Paulo Alexandre Henriques em Janeiro 28, 2013.

Uma resposta to “Sonhos em crise não são sonhos desfeitos.”

  1. GOSTEI MUITO DE O LER. OBRIGADO

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