Aquela que escreve e sabe escrever

•Outubro 21, 2013 • Deixe um Comentário

          A verdade é que eu tenho medo, mas tenho medo de admitir porque na verdade, o medo, sempre foi o meu maior medo. É uma coisa que nunca vou conseguir mudar por mais que sejam as vezes em que eu já passei por ele. Afinal, do que tenho eu medo? Tenho medo de saber, tenho medo de não conseguir, tenho medo de adormecer, tenho medo de não sorrir, tenho medo de crescer, tenho medo de dormir.

         Um dia, atravessei um vidro que me deu cicatrizes, ou tatuagens vá, para ver a coisa de forma mais positiva, Um dia, a procura deu-me um trabalho, ou dinheiro vá, para ver a coisa pelo lado positivo. Um dia, ganhei vida, ou amigos, ou família, ou irmãos, ou conhecimento, ou coração (o que nem sempre conta), só para ver a coisa de forma positiva. E a única coisa em que acabo por ter medo é mesmo da minha pessoa. Até hoje, pensava que me tinha puxado aos poucos limites que os meus olhos viam mas, na verdade, os meus limites passam por tudo o que não quis fazer até hoje. Sei lá, talvez por uma questão de não querer errar por ter medo do erro… ou da consequência acho. Tenho muito medo que hajam pessoas que me conheçam melhor do que eu me deveria conhecer a mim próprio. Eu achava que apenas eu me podia destruir a mim próprio, o que seria estúpido, mas não. E esse é outro medo que me atormenta, saber se aqueles que te puxam ao longo dos dias são os”bons” ou os “maus”, tal e qual a distinção que eu fazia dos protagonistas que via nos filmes ou em desenhos animados. Mesmo na ficção, a ficção é real. Se a mente humana imagina um lado positivo e outro negativo é porque isso tem de existir, mas esta é apenas a minha liberdade de expressão.

          Eu conheci duas pessoas dentro do Paulo: aquela que escreve e sabe escrever e aquela que fala mas prefere encarar o silêncio. Isto é perigoso, ou nem assim tanto. Quando eu encarei a escrita pela primeira vez não vi nada, vi apenas palavras e achei que tinha graça compor uns poemasitos e uns letras de música. Mas calma, se eu escrevia o que me ia na cabeça era porque eu sentia certo? Pois, isso assustou-me, E ganhei medo de tantas maneiras diferentes e descontroladas com que um gajo acorda todos os dias. Triste, risonho, assustado, preguiçoso. Ou uma mistura de todas elas. Mais uma coisa da qual eu tenho medo, mesmo que não pense nisso como uma forma de me assustar na precisa altura em que me levanto para o dia 1 ou 2 ou 10 ou x. Agora deixo-os passar e volto-me a deitar x horas depois. Que mais poderia eu fazer? Exactamente. Nada.

          Já ganhei a noção da designação de corpo humano e vou passar a referi-la: “Poeira perdi num mar de ar que nasce, vive, morre e passa a ser uma memória que, boa ou má, ninguém apaga mas que, faz com que os dias em que recordamos a sua existência, vão diminuindo”. É claro que pelo meio tens a vida. Peço desculpa, não me lembrava que já tinha referido tal coisa. A vida: zero, vazio, escuro, nada. E o resto: tudo igual e nada muda, apenas mais lágrimas perdidas no chão do quarto em que vives sozinho. Medo? Sim, tenho, não quero acabar dessa forma. Fui feito para rir.

          Para finalizar, tenho medo de não realizar o sonho mais importante de todos. Ter uma família criada por mim, ter dois filhos com o meu apelido, ter uma mulher que não ligue a coisas muito complexas e que goste de mãos dadas na baixa de Lisboa. Tenho medo que o meu pai nunca mais me fale, tenho medo que o meu irmão não se sinta realizado, tenho medo que a minha mãe desapareça um dia, tenho medo que a casa da minha avó vire ruína, um dia, Tenho medo que haja um dia em Coimbra e não hajam dois em Lisboa. Tenho medo do que vai ser de mim sem Torres Novas. Tenho medo de largar, tenho medo de arriscar, tenho medo de ficar agarrado, como uma bolha de sabão, ao fundo do mar, enquanto vou flutuando no meio de toneladas de água. Tenho medo de ver coisas tão boas, bonitas, elegantes, excêntricas. Tenho medo de ser ganancioso demais. Futuro, eu tenho mais medo de ti do que tenho do passado. Com o presente eu não me importo porque acabei de escrever dos meus melhores excertos. E olha, sabes que mais? Gostava mesmo que tu fosses o único a guardar segredos, futuro.

DSC00431                                                       Foto da minha autoria, Lisboa 2013

por Paul Alexandre Henriques, Outubro de 2013

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Um dia, dentro de um e tanto

•Março 17, 2013 • Deixe um Comentário

          Cresci a saber que aprender por querer nos leva a vencer, nos leva a acreditar que há sempre mais e mais para ver… Mesmo assim, tento não ver o mundo, mas sim o que o Mundo tem: paisagens, crianças, festas, música, experiências… E vou guardando tudo no tesouro que se encontra entre as costas e o peito, entre o olhar e o sorriso, entre aquilo que eu vejo e aquilo que eu realmente quero ver, entre o tudo e o nada. Ou até entre o que fazia… e o que agora faço… O meu trabalho…

          Todos os dias tenho aturado pessoas mal educadas, pessoas simpáticas, pessoas resmungonas, pessoas que querem alguém para meter a conversa em dia ou até mesmo para lhes fazerem 5 minutos de companhia. Ainda não adivinharam qual o meu emprego? Escritor? Na! Eu sou alguém que vê gestos e para o tempo, tão levemente que nem dou por isso. Alguém que sobe e desce escadas para não empatar o transito no corredor do elevador, e bate de indicador dobrado em portas de madeira ou faz soar pequenos sonidos, das campainhas. Para uns, um chato, para outros, uma alegria. Para uns, não faço falta, para outros, já não havia hora de aparecer. O meu trabalho é falar com pessoas… e vender coisas a essas pessoas. Mas o verdadeiro prazer disto tudo é conhecer cidades inteiras, enquanto faço maratonas de moradia em moradia, à espera de facetas novas, feitios desconhecidos ou chatices para resolver.

          Não se pode perder o controle, nem mesmo quando as coisas que me dizem não me agradam, o que é inevitável. Mas inevitável mesmo é, não tentar agradar a quem nos acompanha, sejam chefes, namoradas, mães, pais, ou até a mim mesmo. Eu tenho de estar sempre no topo dessa cadeia, sem alimentar esperanças de grandes progressos, mas manter a fé, em atingir enormes patamares para um dia eu ser maior do que o tamanho do meu corpo. Finalmente amo a vida, mas todos os dias eu tento conquistar a vida.

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por Paulo Alexandre Henriques

Sonhos em crise não são sonhos desfeitos.

•Janeiro 28, 2013 • 1 Comentário

          Havia dias e dias, em que eu vivia como alguém normal. Vocês sabem, acordava por volta das sete da matina, tomava um banhinho seguido do pequeno almoço e, sem mais demoras mas quase sempre atrasado, lá ia eu para a escola às 08:30 para cumprir o meu dever de estudante. Podia não ter um trabalho onde ganhasse dinheiro mas tinha um trabalho que, para além de me ocupar o tempo, me dava a chance de me formar, de “poder ser alguém”. Foram 12/13 anos praticamente levados em vão, sempre a pensar que a vida estudantil não me daria sucesso ou descanso, mas agora arrependo-me e muito.

          Eu posso ter um talento, que é escrever, mas também sei que ninguém me levará a sério se eu não tiver um diploma a dizer que me licenciei. E isto, leva-me a acreditar que o Mundo não é assim tão leal quanto eu pensava. Já pensei centenas de vezes se há algum tipo de obrigação subjacente à vida de qualquer pessoa em obter um curso superior só porque toda a gente tem, e ainda não consegui pensar nada em concreto, apenas que, sem ter uma profissão “digna” ninguém me olhará com respeito. Mas isto leva-me a mais questões. Uma delas é: será que uma pessoa de “respeito” será melhor do que aquela que não merece “respeito”? Para mim, a resposta é óbvia: Não! Qualquer pessoa que fundamente a vida e os seus dias com acções que possam ser valorizadas, trabalho, força de vontade e coragem merece ser respeitada. Mas eu já só vejo revoluções, roubos, abusos, mortes, crianças sem uma refeição decente para se alimentarem, famílias desalojadas… e a razão disto é? A crise?? Acham?? Eu digo-vos que não é só a crise, então.. O problema está nas pessoas. A maioria delas já se habituo a viver com muito, a maioria dessas pessoas pensavam que tinha de viver com tudo e acabaram por ficar sem nada… a maioria das pessoas pensou que era no “gastar” que estava a solução, e enganaram-se, redondamente.

          Falo-vos da minha família, onde um pai sempre me disse que bem chegando aos 18 eu teria de arranjar um trabalho, e eu fiz isso. Mas infelizmente, como nos tempos que correm fecham milhares de postos de trabalho, a minha sentença durou apenas um mês atrás de um balcão. Lá fui guardando o dinheiro que recebera, para ir gastando em coisas mais importantes que fossem surgindo. Mas fui burro. Quando era criança, recebia uma boa quantia pelos anos ou outra festa qualquer e ia logo a correr gastá-lo… se fosse hoje já não seria assim… hoje gostava de ter esse dinheiro para tirar a minha licença de condução, ou para uma viagem, ou para cumprir outros tantos sonhos que um jovem tem.. Sinto-me infeliz por precisar do dinheiro para ser feliz… Sinto-me infeliz por precisar de reconhecimento para ser feliz… Sinto-me infeliz por dar voltas a mais para ser feliz… Eu sinto-me infeliz…

          Tenho de me habituar a pensar que, numa vida, existem coisas que acontecem por acontecer e que nunca mais voltam ou que simplesmente somos obrigados a desfazer-mo-nos de coisas do passado. Umas vezes isso acontece sem nos darmos conta, sem termos tempo de voltar atrás e corrigir ou remodelar seja lá o que for. Também já aprendi que a cabeça não precisa de guardar momentos felizes, até porque nessas alturas, pintam-se imagens em máquinas modernas para darem luz, um dia mais tarde, a molduras. É pena é que sejam imagens paradas no tempo. Eu lembro-me de tudo mesmo assim. Seja apenas de um jantar, em que todos bebiam e riam e conversavam ou discutiam dos mais diversos assuntos da actualidade, enquanto a dona da casa fazia de tudo para receber bem os convidados… ou seja de uma caminho, percorrido em direcção à costa algarvia, e no sono que se aproveitava para repor naquelas 3 ou 4 horas de viagem… Enfim, tudo mudou e sei que, no que toca a estas sensações, nunca haverá “cromos” repetidos.

          E aqui, encontro o medo. O medo de ter medo, o medo de não conseguir arriscar, o medo de não saber o que está certo. Eu sei que preciso de procurar as minhas histórias, tentar ser livre pelo menos. Também sei que, não é num livro que eu encontrarei a caricatura da minha história ou do meu futuro. Eu sinto-me parado e não é apenas por sentir, é porque estou mesmo parado de todo. Se antes era o tempo que me acompanhava, hoje sou eu que acompanho o tempo. Consigo ser mais lento que tudo o resto, sendo eu o próprio resto, o que é mau. Deito-me, mal me levanto, se me levanto pouco faço, não como a horas certas, não sei o que é estar em família, não me apetece fazer completamente nada. Isto é um vazio eu sei, mas parece que ando a desistir de tudo. Preguei-me à saudade, à angústia de não ser quem eu realmente queria, ao azar que tive… mas devia ligar mais à sorte e chamar essa tal de fé. É que só se eu não quiser é que não terei o respeito que me é devido, e nem é só isso, preciso também de me sentir confortável e realizado.

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por Paulo Alexandre Henriques

Entre o tudo e o nada…

•Janeiro 19, 2013 • 2 comentários

          Eu nunca soube ao certo o que era saber, nem mesmo para compreender certos métodos que me levariam a aprender coisas que eu nunca vou conseguir esclarecer. Nem mesmo para me encontrar, nem mesmo para me perder… Nem mesmo para acordar, nem mesmo para adormecer… Nem mesmo para ver algo feito, nem mesmo para ver acontecer…

          Nem mesmo quando me sinto pronto, eu sei para que lado ir. Direita? Esquerda? Frente? Ou talvez retorne?  Só sei que tenho dado passos em cinzas apagadas sem que o lume por lá tenha passado, pois o passado ardeu. Entre características assemelhadas a pontos negros na minha pele, entre mistérios que só o fumo ou o nevoeiro fazem sucumbir, entre as costas e o peito, entre o que tu queres e o que tu não queres, entre eu e tu, entre amor, ódio… Entre o tudo e o nada… Já não sei inventar o que foi inventado… Deixando-me com tremenda inveja de não ter vivido no século passado. No final, a folha, acompanhante das tuas letras, vira um avião de papel que, sugado pelo vento patriota que não deixa de vadiar perto da tua janela, acaba por o encalhar  na berma de qualquer passeio.

          Perturba-me haver sono para ruas que nunca dormem, ou visão a mais para tanto cego que quer ver e não pode. O que me chateia ainda mais é o facto de eu ter imaginação, paleta, talento e essas tretas todas, e não conseguir mexer a ponta de um dedo… nem sequer para inventar o que já foi inventado… Posso não reencarnar a escrita de acordo com o que todos querem ler, mas sim de acordo com o que alguns sentem. Eu não posso ter um plateia, eu não posso ter um palco, eu não posso ter uma poltrona. Não sou Rei, nem nada… Sou água, sou are

 

 

 

por Paulo Alexandre Henriques, 2013

São voltas em papeis são…

•Janeiro 6, 2013 • 2 comentários

          Becos… Sei lá o que são becos… E Ruas… nem tão perto eu sei o que são ruas… De certo serão avenidas que prolongam o som do silêncio, ou esquinas em quartos de manicómios onde os gritos servem de incenso… E o que escrevo… soa a suicídio… Até o suicídio soa  a algo tão bom para quem não sabe o que é escrever de verdade… E imagino, que o mundo é tão forte quanto eu, fazendo do mundo ainda mais fraco, mais pobre, mais frágil… como eu… Que sou um objecto bastardo, enfeitado com roupa, na maioria colorida, sem grandes acessórios, apenas uma pulseira. O coração é revestido por facas, que não espetam, que não magoam, que nem sequer me tocam… porque são facas invisíveis. Para me aventurar a seguir ao meu nascimento, carrego às costas duas asas, caracterizadas por serem inteiramente planas e por não me fazerem voar, fazendo com que vá dar sempre ao mesmo. Para tentar perceber o que vejo à minha volta, não uso os olhos, uso o cérebro, para saber agir o mais rápido possível, ou seja, tentar não olhar para o que ocorre em meu redor.

          E é assim que passo mais um dia no metro, sempre com os mesmo passageiros de sempre, para os quais nem precisei de olhar para decorar as suas caras de cansaço, de angústia, de tristeza ou até com um sorriso no rosto como quem diz “hoje sou livre, vou passear”. Hoje voar é com o vento, hoje receber luz de borla é com a lua, hoje ter tempo para ter tempo é única e exclusivamente para o tempo. É assim… sonhos mancham céus e, se antes era o branco que manchava o cinzento, hoje é o cinzento que mancha o branco. E amanhã… o hoje continua a ser hoje. Sem diferenças e sem grandes rascunhos que, se forem igualados a tostões, vão dar ao mesmo.

          Os ombros viram ruelas, abrigos da chuva varrida do olhar. A voz fica de sentinela, à espera dos zeros, para poder rebentar. Os poetas passaram a ser meros passageiros que viajam pela calada, enquanto outros de outrora se tornaram obra do oficio. A metade deixou de vaguear e agora, é o tudo ou nada. É uma carta mal dobrada, é uma lança mal afiada, é uma lição que nem sequer foi estudada, é uma mão que deixa a tua cara amachucada, é o tudo ou nada, e a tua vida pode ficar mal terminada. São voltas em papeis são… Mas eu não me esqueço que o branco também se pode deixar de ver na escuridão ou que as flores do prado podem murchar em pleno Verão ou… que o sangue… pode deixar de passar no nosso músculo anfitrião…

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por Paulo Alexandre Henriques, edições 2012

“Um dia, eu nasci, passei a ser o Paulo”

•Dezembro 29, 2012 • 4 comentários

          Sonhar… sonhar com nada e sonhar com tudo… é o que faço constantemente, sendo que, na maioria das vezes, é ao nada a que me resumo. Deixo de ser alguém, os meus desejos, crenças, objectivos derretem-se em poções desleixadas, desde o início da sua criação e, o nada passa a ser tudo, mas só dentro da minha cabeça. Sonhar é a única coisa que, mesmo eu ficando em casa, nunca vai parar de ser uma coisa antiga, mas ao mesmo tempo nova. Ora, eu fico em casa porque quero esquecer o vento, quero não saber o que é a luz do sol a raiar na minha cara, quero não ver as pessoas todas novamente todos os dias… e assim, não sairei daqui por uns anos, para ver tudo de novo, mesmo sabendo que o resultado final vai ser sempre igual ao anterior. Posto isto, sonhar marca a diferença, isto porque, mesmo sendo algo que nos traça marcas desde cedo, continuará sempre a inovar, porque os sonhos nunca vão ser os mesmo e eu… eu poderia fazer uma lista de infinitos sonhos, e pesadelos também… mas há sempre parte deles que me preocupam…

          Um dia, eu nasci, passei a ser o Paulo, e assim resumo o meu passado. Só não sonhei nascer, mas de resto, sonhei ou idealizei quase tudo, mesmo que parte desse tudo fosse uma parte má. E assim, fui aprendendo a montar puzzles para ser um puzzle, sem peças para montar, mas com filosofias às quais tive e tenho de arranjar um significado para lhes dar. O básico está mais do que feito: sei acordar e sei adormecer, mesmo que sejam as únicas coisas que nunca ninguém me escreveu num quadro preto, para que as tivesse de aprender.

          O errado, é que eu deixei de pensar que penso porque enlouqueci, e sonho, porque não tenho mais nada para fazer por aqui, senão sonhar. Mas vou agarrando! Vou abraçando! Vou espreitando! Palavras! Histórias! Aventuras! E oiço Sara Bareilles em Gravity a falar sobre o amor… Sim Sara o amor é um sonho e balança na gravidade. “Eu quero ir viver com a minha namorada para Inglaterra, ser feliz, trabalhar, estudar, ter a minha família”e o Deus que me pode ajudar a concretizar este sonho é mesmo o Amor. “Continua a acreditar!”

          “Não deixes de escrever, eu preciso do que tu escreves!”; “Amor, tu vais ser alguém, eu tenho a certeza” – só me falta força para deixar de sonhar e fugir, levantar voo até onde nunca ninguém foi, criar somente aquilo que me apetecer, sem roubar nem mentir nem agredir nem discutir, quer dizer, só não discuto mais porque folhas não falam. E eu vou atrás, levando na influência de que já pouco me diz, e deixo-me ser um adulto enfiado num adolescente. Eu não sonho em sair, sonho em partir feliz, jamais serei um escritor, jamais serei artista… eu serei, um sonho de um século, um louco, uma pessoa que pensa por gozo. A ideia de que pensamos para construir coisas estás tão abatida que… mais um tiro e as ideias fogem.

          E olha, hoje só poderei mesmo ficar por aqui, até porque detesto pensar em conclusões. Teria de ser um grande imbecil para tirar partido do que toda a gente pensa não acham?

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por Paulo Alexandre Henriques, 2012

O Mundo são… apenas coisas simples.

•Dezembro 20, 2012 • 3 comentários

          O Mundo são… flores em campos,a rondar casas de madeira, velhas, sem serem limpas há anos, cheias de humidade e a servirem de casa para insectos que, por sua vez, fazem buracos, ou teias, ou sei lá, e formam cadeias alimentares bem longe de tudo.

          O Mundo são… artérias na cidade, onde o movimento é confuso, onde o barulho não para de obstruir os nossos ouvidos sem que nos apercebamos disso, onde prédios altos dão valor à palavra “altura”, dando lugar a apartamentos que dão lugar a pessoas, famílias, escritórios.

          O Mundo são… vitórias em corridas, em negócios, em qualquer desporto, em dias, em livros, em filhos, em ideias, em festas, em aniversários, em anos, em curiosidades, ou seja, o Mundo gosta de nos ajudar a vencer e não vencer tudo por nós.

          O Mundo são… perdas enormes, mortes que nos afectam, drogas que aparecem e devastam qualquer ser de carne e osso à nossa volta, ataques terroristas cujas balas de fogo lutam contra seres menores, fome acrescentada a crianças que quase não chegam a abrir os olhos a tempo de descobrirem o que é o sol, o Mundo são histórias podres, pobres, parvas.

        Eu gostava que o Mundo fosse algo de extraordinário todos os dias, como se houvesse sempre algo verdadeiramente novo para eu agarrar, talvez para me fazer esquecer tudo o resto. Para isso, a solução seria arranjar maneira de ter amnésia, fazendo com que eu acordasse todos os dias sem saber que sou vivo, amando a vida de 1001 formas diferentes, enquanto conjugaria o futuro apenas com…. o futuro. Arranjaria coração para um sangue diferente e sempre genuíno à felicidade, e o cansaço jamais existiria num corpo que hoje se vê a sofrer até pelas mais mínimas coisas.

          Olhando para nós, deixe-mo-nos de lamurias, só sabemos dizer que tudo está mal, mas Deus na hora de vos fazer descer à Terra não hesitou. Eu nem sou muito crente, mas aprendi a abrir os olhos para saber perceber que há gente em pior situação que eu, é verdade, ainda bem piores que eu. O problema é que me resumo a um quarto onde o globo não cabe. No meio do meu quarto, se o Mundo cá coubesse, já teriam caído dois arranha-céus, já aviões teriam passado em direcção ao Iraque, já um tsunami teria devastado o Sri Lanka, já crianças africanas tinham gritado de dores e suplicado por uma gota de água, já atentados contra Judeus teriam sido cometidos à mão armada, deixando pais e mães em lágrimas de sangue, já pontes teriam caído, e tudo e mais alguma coisa que todos nós sabemos através dos noticiários.

          O Mundo é apenas algo simples que tem de ser levado com calma, eu acho. Não vale de muito ocupar desejos, verdadeiros desejos, de desastres, verdadeiros desastres, aqueles que só nos fazem recuar na porcaria do tempo e, quando pensamos que já podemos avançar, o tempo pode mesmo chegar a parar. Já existiram grandes criadores de tudo e mais alguma coisa, tal como da luz, dos carros, da matemática, mas escutem…. nós também temos uma cabeça para continuar todo este processo de existência, por isso basta meter mãos à obra.

          E nunca se esqueçam, quem fez o Mundo, deve ter uma mão tão mas tão gigante, que faz dele simples ao pé de tudo. Essa mão fez parte do trabalho. O resto é nosso dever criar.

          O Mundo são… apenas coisas simples.

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por Paulo Alexandre Henriques, edições 2012