São voltas em papeis são…


          Becos… Sei lá o que são becos… E Ruas… nem tão perto eu sei o que são ruas… De certo serão avenidas que prolongam o som do silêncio, ou esquinas em quartos de manicómios onde os gritos servem de incenso… E o que escrevo… soa a suicídio… Até o suicídio soa  a algo tão bom para quem não sabe o que é escrever de verdade… E imagino, que o mundo é tão forte quanto eu, fazendo do mundo ainda mais fraco, mais pobre, mais frágil… como eu… Que sou um objecto bastardo, enfeitado com roupa, na maioria colorida, sem grandes acessórios, apenas uma pulseira. O coração é revestido por facas, que não espetam, que não magoam, que nem sequer me tocam… porque são facas invisíveis. Para me aventurar a seguir ao meu nascimento, carrego às costas duas asas, caracterizadas por serem inteiramente planas e por não me fazerem voar, fazendo com que vá dar sempre ao mesmo. Para tentar perceber o que vejo à minha volta, não uso os olhos, uso o cérebro, para saber agir o mais rápido possível, ou seja, tentar não olhar para o que ocorre em meu redor.

          E é assim que passo mais um dia no metro, sempre com os mesmo passageiros de sempre, para os quais nem precisei de olhar para decorar as suas caras de cansaço, de angústia, de tristeza ou até com um sorriso no rosto como quem diz “hoje sou livre, vou passear”. Hoje voar é com o vento, hoje receber luz de borla é com a lua, hoje ter tempo para ter tempo é única e exclusivamente para o tempo. É assim… sonhos mancham céus e, se antes era o branco que manchava o cinzento, hoje é o cinzento que mancha o branco. E amanhã… o hoje continua a ser hoje. Sem diferenças e sem grandes rascunhos que, se forem igualados a tostões, vão dar ao mesmo.

          Os ombros viram ruelas, abrigos da chuva varrida do olhar. A voz fica de sentinela, à espera dos zeros, para poder rebentar. Os poetas passaram a ser meros passageiros que viajam pela calada, enquanto outros de outrora se tornaram obra do oficio. A metade deixou de vaguear e agora, é o tudo ou nada. É uma carta mal dobrada, é uma lança mal afiada, é uma lição que nem sequer foi estudada, é uma mão que deixa a tua cara amachucada, é o tudo ou nada, e a tua vida pode ficar mal terminada. São voltas em papeis são… Mas eu não me esqueço que o branco também se pode deixar de ver na escuridão ou que as flores do prado podem murchar em pleno Verão ou… que o sangue… pode deixar de passar no nosso músculo anfitrião…

426880_543526179005386_1985553471_n

por Paulo Alexandre Henriques, edições 2012

Anúncios

~ por Paulo Alexandre Henriques em Janeiro 6, 2013.

2 Respostas to “São voltas em papeis são…”

  1. começas bem, perdes-te um bocadinho pelo meio e terminas mto bem “Mas eu não me esqueço que o branco também se pode deixar de ver na escuridão ou que as flores do prado podem murchar em pleno Verão ou… que o sangue… pode deixar de passar no nosso músculo anfitrião…” esta então ta mesmo boss

  2. gostei muito obrigada por esta partilha de palavras e pensamentos, lindoooooooo…Um jovem que nos consegue transportar para outro imisfério….bjs

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: