“E o coração que guarde tudo aquilo que não podemos fazer.”


          Eu olho para ti avô, e também olho para ti, mãe e pai e avó e irmão. Eu olho, mas não por ter olhos na cara, nem sei porque olho. Nem sei se, consigo encontrar algo que me fascine, em vocês. Só vim aqui parar porque me perdi, mas isso vocês sabem. Mas o que queria discutir, ou perguntar, se assim der, é se sabem quem eu realmente sou? Será que sou só o Paulo? Será que sou apenas o rapaz que saiu de uma barriga com 6 anos? Será que sou o cachopo que só fazia porcaria quando se sentia revoltado? Ou será que ainda nem me conhecem? Pois, eu já sei que o silêncio é sempre a resposta, ou a anulação do que não me querem dizer.

          “Mas Paulo, não foi nada disso que eu quis dizer.. Mas…” Sim, esse mas quer dizer que não sabes o que dizer. Mas quem? Também não quero saber. As vossas vozes nem gritam, nem sussurram, simplesmente não se ouvem. E parece que vivo dentro de uma gruta, onde o único barulho é o da chuva, isto quando a própria cai, porque de resto, só eu me presto atenção, se é que isso é possível acontecer. Ao princípio, tudo foi bonito entre nós. Os anos mataram-nos, e vocês também já perceberam isso. Ou é porque alguém se suicida constantemente, ou… nada, esqueçam, nem vale a pena dizer muito mais.

          Parei de sentir o que me dizem, agora minto a mim próprio, fingindo que está aqui alguém, sentado ao meu lado. Mas não me vale de muito, isto porque, acabo por ganhar sono, e cair para o lado, para sonhar que tudo é estupendamente maravilhoso, que sou alguém na vida, opondo-se seriamente à realidade em que, hoje, vivo. Ser criança, sim, foi um sonho que não se vai voltar a repetir. Mas também o que é que nesta vida se repete? Palavras apenas, por vezes injustas, por vezes não declaradas… De resto, é mesmo isso, o resto.

          “Qual é o teu desejo?” Que as pessoas deixem de pensar em desejos e se foquem em coisas concretas, é que desejar, hoje em dia, parece um crime. O que vale é que eu também desejo, muitas coisas até, mesmo que, o que tenha recebido até hoje, na maioria das vezes, não tenha sido aquilo que eu mais desejei. Mas falar, sem dúvida, que é a coisa que mais peço neste mundo, e que Deus nunca me tire as mãos, para que eu declame os meus depoimentos perante o globo. No meio disto tudo, também me vou esquecendo que certas coisas existem, que tenho uma casa e cama para dormir, entre outras coisas. “Apetece-me virar tudo ao contrário, pode ser pai? Hoje tu és o filho, e eu, o teu pai”. O que será que o meu pai ficaria a pensar? É que nem quero pensar… Daria uma risada interna e ficaria a pensar que eu sou maluco, devendo inclusive, ser internado num hospício. “Mas pai, aí já eu vivo”. Fez-se silêncio.

          “E tu miúdo, quando é que acordas? Larga esses vícios”. Será que o nosso sangue também se ergue e destrói a parede, enquanto derrota a espada inimiga? Estou-me a desleixar com tantos serás. Apetece-me tanto revolucionar o presente, mexer no passado, como se ontem tivesse sido o melhor dia da minha vida. Quero encontrar fotografias em que tu eras o meu irmão, despreocupado e inocente. Dás-me o que eu quero, ou preferes que continuo à procura no vazio? “Não me chateies e vai-te embora”. Está bem mano, eu vou, (mas espera por mim que eu volto).

          “E olha grande homem, tu podes até partir para breve, mas eu não te esquecerei, e ainda marcarei a tua ausência, por cada dia a mais em que eu não te consiga mais ver, num quadro de presenças. Nem sei o que te hei-de dizer, é que há tantos assuntos, mas tantos tão delicados. É assim o ciclo, o único que não se renova, que deixa tudo ir sem volta. E o coração que guarde tudo aquilo que não podemos fazer.”

          Nunca me digam isto, não têm razões para me guardarem, motivos para me relembrarem, positivismo acerca de mim para falarem. Mas falem, não há problema. No final de contas, passo o tempo todo a dizer aos meus pensamentos que é na terra, que se encontra o túmulo, a última casa onde tudo se encerra. E eu fico por aqui, mas aguardem o meu regresso.

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por Paulo Alexandre Henriques, edições 2012

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~ por Paulo Alexandre Henriques em Dezembro 1, 2012.

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