Escritor suicida-se no Silêncio


          Eu não vou estar aqui com muitos rodeios, porque farto de rodeios estou eu. Um dia peguei numa arma e apontei-a à minha cabeça e, na altura do disparo, a bala rejeitou ver a luz do dia. Ainda noutra data, abri umas 30 caixas de comprimidos, todos eles diferentes, tomei um ou dois de cada e, apanhei uma “moca” valente, mas não me deixaram partir. Ontem, aproveitei um bocado de corda e fiz um nó de correr para que, quando o meu pescoço suportasse o peso do meu corpo, me estrangulasse e não me deixasse mais abrir os olhos. O que aconteceu? O mesmo de sempre. A corda rompeu e a personagem que queria ir embora… sobreviveu… por acaso era eu.

          Sempre pensei que tinha algo para fazer por cá, um objectivo estúpido que me impede de largar tudo e, por mais que eu queira, há sempre uma mão gigante, transparente e imaginária a puxar-me do sitio para onde eu me empurro. Já pouco acredito em Deus mesmo assim. Nunca o vi, e estou farto de ouvir falar nele!!! Imploro para que me deixem de falar nesse assunto por favor. Inquieta-me demais para eu poder dormir e deixa-me num estado depressivo impossível de aturar.

          As promessa futuras deixaram de fazer sentido e sinto-me desolado por não ser quem eu no fundo queria ser. No fundo eu não queria ficar no fundo e ser o chão desse fundo, porque quanto mais no fundo eu vou, menos do fundo eu consigo sair. Mas, como tal, aprender tornou-se uma feição um pouco careta do ser humano, porque nunca sei se aquilo que aprendo está certo ou está errado. Vou tentando sobreviver à aprendizagem graúda de gente “adulta” que pousou primeiro do que eu no mundo.

          Uma dessas coisas que me ensinaram, foi a não romper o meu silêncio. “Não chores! Não grites! Não respires” – “Mas eu quero viver!”, mas do outro lado há sempre alguém que me diz: ” Não quero saber!”. De seguida vão embora sem fixar os meus olhos multicolores e sempre transparentes… ou não. “Há alguém que me conheça? Meta o dedo no ar então.” – Apesar de saber quem me conhece, apetece-me sempre voltar a perguntar, e não me perguntem porquê, mas gosto de ser parvo, irónico, repugnante, e por aí fora. O melhor disso, é que o silêncio faz com que me suicide para dentro de mim próprio, o que não deixa de ser inteligente, penso.

          “Tu pensas?” – por acaso penso, até demais, penso tanto que entro em paranóia. Sou toxicodependente de pensamentos e ando embriagado de coisas estúpidas que me rodeiam. Até mesmo no meu leito, se torna difícil adormecer.

          Já há muito comecei o meu suicídio, só falta a bala na pistola, a caixa com os comprimidos e a corda pendurada algures. Aí vou dormir, aí vou acordar. Aí vou sonhar, aí expulsarei os pesadelos. Ah, e ainda mais importante: aí não importa o que eu falo, porque me suicidei no SILÊNCIO.

Artigo escritor por Paulo Alexandre Henriques, “Escritor suicida-se no Silêncio”, edições 2012

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~ por Paulo Alexandre Henriques em Outubro 17, 2012.

11 Respostas to “Escritor suicida-se no Silêncio”

  1. Muito bom, gostei, mas nem todos NOS compreendem. Saudações literárias!

  2. autenticamente genial, parabens

  3. poder crer o silêncio para nós escritores nos mata divagamente, vai acabando o nosso ar, o meu grito de socorro é escrever tudo que está em nossas mentes, e olhe que são mil assuntos em um segundo só, poder crer amigo, eu sou mais um personagem nesse texto na vida real rsrsrs…

  4. Amei profundamente! parabéns! Tens o dom de encantar as palavras e tocar os corações!!! Escreva sempre e deixe que todos, possam encantar a alma. amei a leitura!!!

  5. Já não leio um livro…nem me recordo mas depois do que li espero que este texto acabe como merece…um livro!Parabéns!

  6. Excelente, meu grande Paulo! Estou impressionado e agradado! Realmente, todos vivemos no nosso mundo, que flutua, umas vezes juntinho ao solo que pisamos, outras vezes, bem alto, fora de nós… Essa altura tanto serve para alcançarmos as estrelas, como para nos possibilitar a queda, se decidirmos saltar. Tudo tem dois lados, tudo é bom e mau, feio e belo, assustador e tranquilizante! Vamos vivendo e tentar esquecer sempre um dos dois lados, para sermos felizes, ou para nos controlarmos… Felizes.. Será?

    Um grande abraço de admiração!

  7. Gostei do teu texto, conseguiste exprimir algo que por vezes é dificil exprimir, desejo-te sorte no mundo literario!

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