Foi hoje que eu nasci! Nasci a escrever!


          O meu mundo não é o vosso, eu vos garanto com todas as certezas do “meu” mundo. Prefiro sempre ver as coisas à minha maneira e planear o futuro apenas como eu quero, e é sempre isso que vou fazer, para que, um dia, mesmo depois de morrer, continue “vivo”.

I

          O tempo arrancou hoje, o coração ainda agora aprendeu o que é brincar com os batimentos e com o sangue e, a contagem para a morte já está a contar… tic tac, tic tac, tic tac. Ainda agora estou nos braços da minha progenitora, a chorar desalmadamente, sem me importar com o congestionamento sonoro que crio à minha volta. Ainda nem sei bem o que posso fazer, sou pequeno e “chiquito”, como o povo espanhol diz e, não sei andar e a única maneira de expressar é berrando, para chamar a atenção de quem olha por mim. “Olha que o bebé está a chorar”; “Então como está o meu bebé”; “O meu bebé quer-me dizer alguma coisa”. São expressões como estas que hoje comecei a ouvir e, mais do que isso, é com elas que começo a sorrir e a gozar com quem me tem nos braços, é que o pai e a mãe nunca percebem que só me começo a rir porque não percebo patavina do que eles me dizem. Comecei com os biberões e fraldas todas sujas e com os mordomes para me as trocarem. Eu sou fino, mas não se acanhem.  Mas olha, fartei-me de ser bebé, vou para o futuro.

II

          Hoje, depois de todas as fotos que não foram tiradas e de todas as feridas que não foram tratadas, entrei na escola primária, e não fiquem intrigados por não vos ter escrito sobre o percurso de bebé até aqui, é que pouco me interessa. Eu só falo do que eu quero e há tretas que não lembram a ninguém. Querem pessoas ainda mais irónicas, mais estúpidas e repugnantes??? Encontrem-na noutro lado, porque hoje isso não passa por aqui. Ainda sou uma criança, lembram-se? Ah pois, bem me parecia. A minha professora na primária não gosta muito de mim e porto-me muito mal. Não consigo parar de mentir e a verdade é que não sou capaz de arranjar amigos. Em casa? Porto-me mal, respondo mal aos meus pais, e como tudo o que há lá para casa. Ups! Disse a verdade. Também não gosto muito de mim, mas o meu pai diz que eu sou um cigano e que devia viver com eles, inclusive chegou-me a deixar ao pé das barracas deles.  Detesto fazer trabalhos de casa, pinto os livros todos em vez de os escrever com coisas perfeitinhas e organizadinhas. E pronto, sou assim. Quem não me conhecer, que me compre.

III

          Cresci um pouco mais, e tenho uma doença de crescimento e aquilo que continua igual é o meu comportamento medíocre e sou ainda mais mal criado. Já sei dizer asneiras, querem ver? Não? Oh é pena. Sou visto como uma má influência das piores e, inclusive o meu director de turma deu-me com o livro de ponto na cabeça em frente à turma toda. Ainda ontem roubei um jogo de game boy ao meu amigo João Pedro Nascimento e cheguei a casa a dizer que o tinha achado no chão – sou mesmo engraçado. Como vêem o meu crescimento não se adequa à minha cabeça e continuo a ser o mesmo puto ordinário que toda a gente conhece. Até sou inteligente mas sou preguiçoso a dar com um pau.

IV

          Vocês ainda não perceberam o que eu quis dizer com tudo isto pois não? Eu fartei-me de contar o meu passado, e não foi para isto que eu nasci. Blá blá blá e por aí fora. Isto cansou-me a cabeça e sinto-me exausto. Sou um crime, e ninguém compreende. Não sou adoptado, não tenho doença nenhuma, não sou burro, não sou mentiroso, não sou apenas.

          Eu quero ter a minha imagem e ser o mais simples possível e acho que a mudança acabou de chegar. Para quê eu ter de me explicar através de águas passadas? Eu nasci hoje, eu nascerei amanhã, eu nascerei no futuro e, quando tiver terra em cima, aí sim, espero que leiam o meu livro de trás para a frente inúmeras vezes. Na verdade, contei à pessoa que amo que, no final do meu presente, quero ser cinzas a aprenderem a voar numa ravina.

          Uma das coisas que mais queria eu já encontrei, amor. Amor tem vários significados e estou farto de quem os anda a explicar. Compreendam que o amor não são palavras, são coisas estranhas que se sentem. Não confundam.

          Lembro-me de quanto tinha 18 anos, quase 19, e conheci algo que jamais esquecerei. Ouvi uma voz de uma mãe perdida a chamar o filho a milhares de quilómetros de distância. Até eu me perdi mas até eu ganhei coragem para ser quem sou hoje. Sou o Paulo Alexandre Henriques a encaminhar-me para ser alguém, ainda não sei aonde, mas pouco me estou a importar.

V

          Estou a um mês de ver algo novo, algo mais rigoroso. Vou ser eu a lutar pelos meus objectivos verdadeiros e, sinceramente, nunca tive tanto medo de arriscar, mas estou tão ansioso por começar algo que para mim sempre foi um sonho. Eu não sou o meu passado e esqueçam-no de uma vez por todas. Eu sou o que escrevo e é só nisso que se têm de basear. Querem esclarecimentos acerca de mim? Por agora é impossível mas uma dia…. não sei, nem ninguém saberá… Apenas gosto de ser estranho a escrever….

Artigo by Paulo Alexandre Henriques, Edições 2012

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~ por Paulo Alexandre Henriques em Outubro 14, 2012.

Uma resposta to “Foi hoje que eu nasci! Nasci a escrever!”

  1. BOY, se escreveres sempre como escreveste até ao ponto IV eu compro-te! foda-se a escrita é tão simples e tão inocente que só me apetece bater-te por não conseguir fazer igual…

    …mas depois cresceste e perdeste a piada : /

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